Apenas um garoto

 

Crônicas da vida de um garoto como qualquer outro, de um morro qualquer da periferia...

O nome? Roberto! Garoto que aos 10 anos perdera o pai, que sempre o ensinara a não brigar e a fugir de confusões, coisas que só iria entender alguns anos mais tarde...

Passando a assumir o sustento da família, mãe e irmã, descobre cedo o significado da palavra responsabilidade.

Talvez como uma revolta inconsciente pela perda do pai, embora fosse de pequena estatura e muito magro, nunca fugia de uma boa briga – a maioria delas provocada por ele mesmo, sem importar-se se o adversário era mais alto, mais forte ou mais de um...!  É claro que nem sempre vencia!!!

Tendo crescido numa época em que os cinemas abarrotavam de filmes de Artes Marciais, especialmente os de Bruce Lee, já saia do cinema procurando por uma boa briga.

Um dia, com pouco mais de 19 anos de idade, procurou uma Academia de Karatê, para “melhor bater nos outros” – Isso mesmo! Foi exatamente com essa intenção que chegou na Academia do professor Antonio Márius Bagnati.

Para sua surpresa, coisas como violência e arrogância não existiam naquele local e o professor, ao contrário do que imaginava, era a tranqüilidade e auto-confiança em pessoa...

Roberto já conhecia Márius, pois esse era dono de uma construtora que era concorrente da empresa onde ele trabalhava na época; só não sabia que era professor de Karate! Essa informação foi-lhe passada por um amigo que trabalhava e treinava com o professor Márius, amigo esse que o convidou a ir até a Academia e “fazer uma aula”...

Com o início dos treinamentos Roberto constatou que a calma e tranqüilidade com que Márius dirigia sua empresa eram as mesmas mostradas nos treinos e isso chamou muito sua atenção...

A calma e a tranqüilidade que emanava faziam com que seus movimentos fossem precisos, fortes, porém, suaves, com uma precisão só comparada a de seu Mestre, Takeo Suzuki, um mestre japonês que vinha de Minas Gerais para os exames de graduação e pelo qual todos tinham o maior respeito!

Digo respeito não apenas por ele ser um “Mestre”, mas pela sua sabedoria, pela harmonia que irradiava e pelo nível técnico que alcançou.

Cerca de um ano depois a Academia fechou e o professor Márius parou de dar aulas mas, o tempo de convivência e treinamento com essa pessoa especial foi decisivo para mudar sua visão das Artes Marciais.

Um bom exemplo disso foi um fato ocorrido um dia, após a sessão de cinema que terminara e, no caminho pra casa um bêbado barra sua passagem e exige um cigarro! Ele diz não fumar – o que é verdade até hoje – mas o cara não acredita e empurra-o dizendo: “Vou te dar uma porrada!!!” No mesmo momento seus olhos brilharam, o corpo respondeu automaticamente – oba! Uma boa briga!!

Mas, nesse momento algo aconteceu!

Se fossem alguns meses atrás, provavelmente o bêbado iria para a UTI... Mas nessa época alguma coisa dentro dele havia mudado – ele deu dois passos para trás, analisou a situação e pensou: O que é que eu vou ganhar com isso? Se eu bater no cara, além de poder machucá-lo muito, seria covardia, pois o cara mal se agüenta em pé!!!

Virou-se e foi para casa sem ligar para os palavrões que o bêbado continuava a falar.

Outra mudança visível aconteceu nos próximos filmes que assistiu!

Deixou de prestar atenção na violência pura e simples e começou a procurar os detalhes dos movimentos e técnicas e na razão que fazia os personagens lutarem...

Tentou treinar em outras academias da cidade, mas desistiu!

Não que os professores e instrutores fossem ruins – alguns eram muito bons – mas faltava aquele “algo mais” que tinha encontrado no professor Márius e que os outros não tinham.

Decidiu treinar sozinho e virou o que na época chamavam de “rato de academia”, era o cara que ia a todas as academias, assistia às aulas e nunca se matriculava...

Olhava, observava com atenção até maior que alguns alunos e depois praticava em casa – no início sozinho, depois foram aparecendo alguns amigos...

Nessa época, aos 23 anos, perde a presença da mãe, mulher lutadora e forte de quem herdou a tenacidade e a coragem.

Foi a época em que mais se dedicou aos treinamentos – provavelmente para compensar essa grande perda.

Seus pais tiveram muita influência no seu caráter e ele lhes é grato até hoje, assim como é grato aos ensinamentos de Márius Bagnatti, seu primeiro professor de artes marciais e um dos responsáveis pela maneira como hoje interage com seus alunos.

Outro personagem que influenciou sua vida foi Bruce Lee, através de seus filmes e de sua história de vida.

O que mais o impressionou foi a capacidade de Bruce lutar pelos seus ideais, às vezes contra tudo e contra todos, para poder mostrar a sua maneira de ver as artes marciais, que ele chamou de Jet Kune Do – desse modo, é uma história muito parecida com a dele, pois a Arte do Bushidô nada mais é do que a maneira do Roberto ver as artes marciais.

Aliás, todo estilo de arte marcial nada mais é do que a visão de seu criador – a maneira como ele vê a arte marcial, por isso a existência nos dias modernos, de tantos tipos diferentes de artes marciais.

Para finalizar este primeiro texto, deixo-os com uma mensagem:

Qual é melhor: Karate, Kung Fu, Jiu Jitsu, Aikido, Capoeira, Bushidô ???

 

Não existe arte marcial melhor ou pior que outra, elas são simplesmente diferentes!!!

 

 

Roberto Silva – Fundador da Escola Bushidô