O que é o Bushidô?
Por Roberto Silva
Segundo seu idealizador: "O Bushidô é resultado de anos de aprendizado de várias técnicas de diversos estilos de artes marciais, com uma observação criteriosa e um treinamento autocrítico, adaptados para a defesa pessoal efetiva nas ruas... É, também, um estilo de vida adquirido pela vontade, que é confirmada através da paciência e da perseverança...”.
Acreditamos que a verdadeira arte marcial se faz com o corpo, a mente e o espírito em total harmonia, para tanto, o Bushidô trabalha a parte física, técnica e, principalmente, a chamada “parte interior” do individuo, procurando formar não só pessoas que saibam defender-se, como também indivíduos melhores como “ser humano”.
Temos como objetivo principal despertar no estudante o auto conhecimento, através de técnicas físicas e mentais, fazendo com que cada um busque o seu próprio “Bushidô”.
Afinal,
“Aquele que Vence a Si Mesmo é o Maior dos Guerreiros”
BUSHIDÔ
O Código de Conduta do Guerreiro Samurai.
por Cheryl Matrasko
É difícil iniciar uma discussão sobre Bushido sem introduzir o guerreiro Samurai. Pois, foram os Samurais que desenvolveram, escolheram e dedicaram toda a sua vida ao código de conduta não escrito, conhecido como Bushido. Por último, seria uma desonra para a memória deles e para a herança dos modos marciais, que ainda nos servem para impedir que muitos de nós sejamos bárbaros e selvagens em nossa própria arte marcial.
Os Samurais são legendários por suas proezas e habilidades guerreiras. A dedicação, lealdade e honra verdadeira desses guerreiros fez com que eles se tornassem famosos através de murmúrios da classe governante.
Sua posição social superior permaneceu com eles por muitos séculos, até 1800. O Samurai realmente cresceu da classe guerreira feudal de 1100 até 1300, durante o período Kamakura. Foi durante este tempo que a classe Samurai se tornou um membro poderoso da aristocracia.
A classe dos guerreiros profissionais tinha muita das vantagens sociais que a classe superior desfrutava, como salário mensal, sem fronteiras para viajar e eram legalmente permitidos a usar as espadas longas e curtas, que também serviam para representar sua posição social.
Os Samurais bem disciplinados e os guerreiros altamente treinados, eram tipicamente estóicos em sua natureza. Essas qualidades eram promovidas pela influência e desenvolvimento do Budismo Zen, durante o período Muromachi, em 1300 até 1570. Como resultado, a vida dos Samurais não apenas se tornou uma das educações disciplinadas e militares, mas um cultivo rico do espírito e mente através das artes da escrita, pintura, caligrafia, filosofia, etc. Era como se a Renascença estava sendo experimentada em sua seita social.
O Zen deu a classe guerreira iluminação, polimento e refinamento pessoal. Muitas das artes japonesas verdadeiras que nasceram do estilo samurai ainda existem hoje em dia, como a arte de sacar a espada (Shimmeimuso-ryu fundado por Shigenobu Hayashizaki), Kendo (o espadachim mais notável em Kendo é Kagehisa Ittosai Ito), arco e flecha, assim como a cerimônia do chá, para mencionar algumas das artes marciais descendentes daquela época.
O código de conduta não escrito dos Samurais, conhecido como Bushido, sustenta que o verdadeiro guerreiro precisa manter sua lealdade, coragem, veracidade, compaixão e honra acima de tudo. Uma apreciação e respeito da vida são então imperativos para o balanço do caráter de guerreiro do Samurai. Ele era freqüentemente muito estóico com uma paixão filosófica profunda e forte. Ele podia ser mortal em combate e gentil e compassivo com crianças e os fracos.
No século 1600 (parte da era Tokugawa ou Edo), em uma tentativa de estabelecer a agitação social no Japão, o sistema da casta feudal no Japão começou a ver seus primeiros sinais de erosão. A classe Samurai foi então forçada a se dirigir para a área do comércio (fazendo serviço civil, se tornando comerciante, etc.), e a sociedade desfrutou da paz e ordem social por aproximadamente 350 anos sob a ditadura do regime Tokugawa. O estilo de vida e a demanda para os samurais estavam em processo de mudança.
No final do século 1800, os uma vez guerreiros de prestigio e suas famílias se acharam em estado de empobrecimento financeiro e famintos. O modo de vida Samurai tinha acabado. Depois do fim do papel de Tokugawa, a restauração de Meiji de 1868, aboliu o sistema feudal em que o Samurai desfrutou de riqueza e sociabilidade.
Um exército nacional novo foi estabelecido, cidades foram florindo, influências ocidentais começaram a infiltrar na cultura japonesa e a necessidade da existência dos Samurais também tinha acabado.
Os Samurais tiveram uma era rica e frutífera no período Kamakura até o período Muromachi. O Budismo Zen influenciou-os enormemente dando-os iluminação para um bom julgamento, crescimento pessoal e atenção própria. Sua exposição e imersão dentro da filosofia e das artes expandiram suas perspectivas e os deixaram além dos limites de suas próprias regras e cultura feudal. É de onde o Bushido, o Código de Conduta Samurai, se cultivou.
O Mito dos "Samurais Modernos"
Gilberto Antonio Silva
Nos dias atuais, em que todas as áreas do conhecimento estão sendo renovadas e questionadas, somos bombardeados com uma série de conceitos antigos formulados de modo "moderno". Um desses conceitos que está sendo exaustivamente utilizado na área das artes marciais, de forma quase patológica, é o de "samurai". Ouvimos a todo instante que "Fulano é um verdadeiro samurai" ou "Beltrano tem o verdadeiro espírito dos samurais" ou ainda outros que se auto-intitulam "samurais".
Bem, para podermos compreender o que significa realmente ser um Samurai temos que retroceder no tempo.
A classe guereira sempre foi muito importante na história do Japão. Ela começou sua longa escalada rumo ao poder à partir do século XII com a vitória do clã Minamoto sobre outros clãs guerreiros e o declínio do poder do Imperador. Em 1192 Yoritomo Minamoto funda o primeiro shogunato, chamado de Kamakura. O Shogun era um governante "indicado" pelo Imperador, que na verdade não possuía nenhum poder. A principal função do Shogun era controlar os Daimyo, senhores feudais da aristocracia. O Período Kamakura, como acabou conhecido, foi marcado por duas invasões mongóis e por um aumento na importância do guerreiro. Durante o Período Momoyama (1568-1600) estouraram diversas guerras entre os clãs, com Odo Nobunaga invadindo Edo (Tóquio) e destruindo templos budistas. Mas os Samurais tiveram seu momento de glória liderados por Ieyasu Tokugawa, que iniciou o Período Tokugawa (1600-1868), "Idade de Ouro" dos Samurais. Em 1685 o Bushido, o código de honra dos Samurais, é colocado por escrito pela primeira vez, causando uma generalização de sua utilização. Com o passar do tempo os Samurais se aproximaram da nobreza, passando a serem educados da mesma forma que os nobres. Em 1868, com a Restauração Meiji devolvendo os poderes plenos ao Imperador, o shogunato foi extinto e os Samurais perderam seu status privilegiado. Com a proibição do porte de espadas, a classe guerreira sofreu um duro golpe, do qual muitos não conseguiram superar.
Essa é mais ou menos a história. Oficialmente, a classe dos Samurais foi extinta na Restauração Meiji. Alguns japoneses valorosos foram considerados Samurais por seu espírito, como o Almirante Togo, brilhante estrategista militar apelidado de "O Samurai do Mar", e o famoso escritor Yukio Mishima que se suicidou no início dos anos 70 para demonstrar o verdadeiro espírito Samurai às novas gerações. Em vista disso, como se portam os "samurais modernos"?
Em primeiro lugar deveríamos perguntar a esses indivíduos a quem eles servem, quem é o seu senhor. Todo Samurai tinha um senhor, a quem servia durante gerações, levando sua fidelidade ao ponto de se suicidar quando seu senhor perdia as propriedades ou morria. Será que os "samurais modernos" servem a alguém? (segundo alguns autores, Samurai vem do verbo "samuru"=servir). Antes de mais nada, o Samurai era um servo, embora todos se lembrem apenas dos pontos gloriosos.
Muitos que praticam Kendô ou outra arte japonesa com espadas também se consideram "samurais". Não basta manejar a espada: é preciso seguir à risca o código de conduta extremamente rígido desta casta. Aliás, será que algum dos "samurais modernos" conhece na verdade o Bushido? Será que já leram o Hagakure, um dos textos mais importantes da época dos Samurais e que demonstra seus princípios?
Lembram-se dos Capitães-de-Mato, indivíduos que perseguiam os escravos fugitivos? Bem, se hoje aparecesse alguém se dizendo Capitão-de-Mato poderíamos perguntar-lhe o que faz para viver pois não existem mais escravos fugitivos. Qual a razão de ser para um Capitão-de-Mato nos dias de hoje, quando nem mato mais se encontra com tanta facilidade? E assim sendo, porque existiriam Samurais nos dias de hoje, se não existem mais senhores feudais precisando de seus serviços?
Títulos. Apenas títulos. Infelizmente o ocidental é muito afeito a títulos, geralmente superficiais e desprovidos de maior profundidade. Quantos "mestres", 9º ou 10º Dan, vocês conhecem? Existem centenas no Ocidente! Qualquer um que consiga bater em um certo número de caras num ringue com regras estritas ou saiba meia dúzia de katas, katis ou coisa que o valha vira "mestre" ou "samurai".
Meu objetivo é o de chamar a atenção dos praticantes realmente sérios para a fragilidade de títulos. Sempre que alguém se disser "mestre" ou "samurai" ou "guerreiro", veja além da arte marcial e observe o homem: cultura, educação, conhecimentos, humildade (presente em todos os verdadeiros Mestres), benevolência. A maioria dos "samurais modernos" são arrogantes, prepotentes, ambiciosos e faladores. Um verdadeiro Samurai nunca sairia por aí dizendo que bate e arrebenta, mas se limitaria a ficar em seu canto, cuidando de sua vida e, se desafiado, com certeza tiraria a vida de seu oponente ou morreria tentando, sem regras. Quando os verdadeiros Samurais se tornaram arrogantes e prepotentes, eles apressaram o seu final. Arte marcial é mais do que a capacidade de bater em outros: é a capacidade de se tornar um ser humano melhor.
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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Escritor com 30 anos de estudos em filosofia e cultura oriental. Foi um importante divulgador das artes marciais, sendo um dos maiores especialistas do Brasil em sua história e filosofia. Como Taoísta procura difundir a sabedoria milenar do Oriente através de cursos, palestras, livros e Internet.
E-mail: gilberto@longevidade.net Site: www.longevidade.net